Mark Weisbrot
Folha de São Paulo
(Brasil), 12 de outubro, 2011
Em Inglês

Muito se criticou o fato de os países Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) terem bloqueado uma resolução na ONU contra o governo da Síria, na semana passada. China e Rússia, como membros permanentes do Conselho de Segurança, usaram de um raro veto duplo, e os outros três se abstiveram. "A população do Oriente Médio pode agora enxergar claramente quais países optaram por ignorar seus chamados por democracia e escorar ditadores desesperados e cruéis", disse Susan Rice, representando Washington na ONU. Boa parte da mídia ocidental aderiu à narrativa transparentemente desonesta e orwelliana de Washington.

Os países Brics tiveram boas razões para temer que essa resolução pudesse representar um passo em direção à intervenção militar. Faz só sete meses que a ONU autorizou a intervenção da Otan na Líbia, sob o pretexto de proteger civis no país. Foi uma enorme mentira. As potências da Otan lançaram mais de 5.000 ataques aéreos para derrubar o regime de Gaddafi. As razões, é claro, foram muito mais relacionadas a petróleo e império que a violações dos direitos humanos, que não foram problema para Washington quando enviou prisioneiros à Líbia de Gaddafi, em anos recentes, para serem torturados ali. A resolução da ONU da semana passada acenava com a possibilidade de sanções, e todos sabemos como sanções -geralmente ineficazes para de fato promover direitos humanos- podem levar a guerras, como a do Iraque, que resultou em mais de 1 milhão de mortos.

Que o governo dos EUA e seus apoiadores falem sobre direitos humanos depois da matança em massa que desencadearam, de suas maciças violações dos direitos humanos no Afeganistão e dos assassinatos cometidos com aviões não tripulados no Paquistão, sem falar na negação dos direitos dos palestinos -bem, chega a surpreender que alguém no mundo os leve a sério.

Washington e seus aliados europeus demonstram pouco interesse em soluções negociadas ou salvar vidas nessa região. A política deles é completamente oportunista: manter Gaddafi no poder e Bashar Assad na Síria, ou Mubarak no Egito e Ben Ali na Tunísia, não foi problema até que pareceu que poderiam ganhar mais se trocassem de lado.

Se estivessem realmente interessados em salvar vidas na Síria, poderiam tentar ajudar a negociar garantias dignas de crédito para proteger as minorias alauíta e cristã sob qualquer possível novo regime. O apoio à ditadura parece vir em grande medida dos medos -não inteiramente paranoicos, em vista do que se deu no Iraque e até na Líbia- de que, quando ela cair, elas podem virar vítimas de violência. Mas as potências da Otan não fizeram nada para ajudar quanto a isso.A Primavera Árabe vem mostrando o poder da resistência não violenta na promoção de mudanças democráticas, com maior êxito até agora no Egito e Tunísia. Outras lutas, como na Síria, sofrem repressão mais violenta e merecem a solidariedade e o apoio do mundo. Mas os Brics têm razão em temer que uma intervenção EUA/Otan piore as coisas ainda mais e em impedir a ONU de ser usada, mais uma vez, como instrumento dessas potências imperiais.


Tradução de Clara Allain. Mark Weisbrot, codiretor do Centro de Pesquisas Econômicas e Políticas, em Washington, e presidente da Just Foreign Policy, passa a escrever quinzenalmente às quartas-feiras.

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