Mark Weisbrot
Folha de São Paulo
(Brasil), 7 de dezembro, 2011
Em Inglês

A casa está ardendo em chamas e seus donos estão discutindo o tipo de normas de segurança que devem ser implementadas no futuro para prevenir incêndios desse tipo.

É o que parece ocorrer na zona do euro neste momento, em que líderes procuram chegar a um acordo sobre uma série de medidas que imporiam "disciplina fiscal" sobre outros Estados-membros no futuro.

É claro que esses candidatos a bombeiro nem sequer identificaram as normas de segurança corretas, já que não foi o alto endividamento de governos que causou a crise, mas sim o crescimento movido pela bolha e pelo crédito excessivo, além de outros excessos do setor privado.

Mas o problema mais urgente neste momento é o próprio incêndio: a zona do euro já se encontra em recessão, diz a OCDE, e sua crise está desacelerando a economia global. Isso inclui o Brasil, que ficou estagnado no terceiro trimestre.

Mas já ingressamos numa nova fase da crise, embora o fato mal tenha sido notado pela mídia, que está concentrada principalmente nos regulamentos anti-incêndio propostos. Na sexta-feira, o presidente do BCE (Banco Central Europeu), Mario Draghi, deu a entender pela primeira vez que o BCE pode exercer um papel maior na compra de títulos italianos e espanhóis.

Segundo relatos na imprensa, ele disse que o BCE tem a responsabilidade de manter a estabilidade dos preços "em uma direção ou outra".

Trata-se de uma mudança de 180 graus em relação à insistência anterior do BCE -que uma ação desse tipo violaria o tratado que determinou o mandato do banco. Em outras palavras, ele estava dizendo que o BCE pode intervir mais com o raciocínio de que está prevenindo a deflação, que é uma possibilidade (embora ainda seja remota) se a Europa afundar mais na recessão.

É claro que isso é apenas uma desculpa não muito digna de crédito, mas que é muito bem-vinda para a Europa e para o mundo, já que os títulos italianos e espanhóis estão no cerne da crise atual.

Se o BCE se engajasse em manter esses juros em níveis baixos, os mercados se estabilizariam e a região se recuperaria, potencialmente.

Há um porém: o BCE só fará seu trabalho e acabará com a crise se conseguir arrancar dos governos europeus a austeridade que deseja.

Agora podemos enxergar claramente o que está acontecendo de fato: o BCE -apoiado pela Alemanha e por alguns outros governos- poderia encerrar a crise em qualquer momento, sem custo algum para os contribuintes europeus.

Mas está prolongando a crise para forçar a adoção de "reformas" que a maioria dos europeus jamais votaria, como elevação da idade de aposentadoria, privatizações e até mesmo controle da UE sobre os Orçamentos nacionais.

É por isso que a crise está longe de ter terminado: o BCE e seus aliados na realidade não querem resolver a crise tanto quanto querem impor essas "reformas" impopulares. Na melhor das hipóteses, as autoridades europeias farão o suficiente para evitar um derretimento financeiro, mas os riscos provavelmente vão voltar à medida que as reformas empurrarem a Europa mais fundo numa recessão, com endurecimento fiscal desnecessário e prejudicial.


Tradução de Clara Allain. Mark Weisbrot, codiretor do Centro de Pesquisas Econômicas e Políticas, em Washington, e presidente da Just Foreign Policy, passa a escrever quinzenalmente às quartas-feiras.

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