Mark Weisbrot
Folha de S.Paulo, 24 de outubro, 2017

Ver o artigo original

Read a similar article in English

O político brasileiro Jair Bolsonaro (PSC), que já foi comparado a Donald Trump, teve sua recente viagem aos Estados Unidos interrompida antes do previsto depois de ele ter cancelado uma participação em um debate na Universidade George Washington (GWU), em Washington. Bolsonaro é hoje o segundo colocado nas pesquisas de intenção de voto na disputa pela Presidência do Brasil em 2018.

O cancelamento não chegou a surpreender (houve alguns outros em Nova York). Uma carta assinada por dezenas de acadêmicos argumentou que a presença de Bolsonaro na GWU "ajudaria um extremista de direita, racista, sexista e homofóbico a conseguir reconhecimento internacional e consolidar a viabilidade política de sua candidatura".

Teria sido essa a finalidade de sua viagem. Mas a oposição e os protestos aqui deixaram claro que, na GWU, Bolsonaro teria que responder a perguntas que ninguém quereria enfrentar.

Bolsonaro também aumentou muito sua notoriedade internacional quando, em abril do ano passado, votou pelo impeachment da então presidente Dilma Rousseff. Ele anunciou que seu voto era dedicado a Carlos Alberto Brilhante Ustra, coronel do Exército que comandou um infame centro de torturas sob a ditadura militar. A própria Dilma foi torturada pela unidade comandada por Ustra.

As declarações racistas, misóginas e antigays de Bolsonaro têm sido tão violentamente exageradas que a comparação com Trump (que Bolsonaro enxerga como exemplo a ser seguido) é quase injusta com o americano. Bolsonaro disse a uma colega deputada que não a estupraria porque ela "não merecia".

Ele quer que policiais tenham o direito de matar mais pessoas, isso em um país onde as execuções extrajudiciais cometidas pela polícia — em especial de afrobrasileiros — já constituem problema grave.

Como é possível que alguém assim tenha alguma chance de chegar à Presidência do Brasil?

É apenas porque o politizado Judiciário brasileiro — com muita ajuda da mídia — pode impedir o líder mais popular do país de ser candidato. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, hoje tem 35% das intenções de voto segundo as pesquisas, enquanto Bolsonaro é o distante segundo colocado, com 16%.

Um juiz que já deu mostras reiteradas de sua hostilidade em relação a Lula o condenou em julho por ter supostamente aceitado um apartamento como propina de uma grande construtora.

Contudo, nem Lula nem sua mulher jamais se hospedaram no apartamento ou assinaram qualquer documento que assinalasse serem donos dele. A evidência da suposta propina foi dada por um executivo que teve sua sentença reduzida de 16 para 2 anos de prisão em troca de seu depoimento.

A democracia brasileira sofreu um golpe devastador quando Dilma foi submetida ao impeachment e afastada de seu cargo por algo que um procurador federal concluiu que nem mesmo foi um crime.

A condenação de Lula deixou ainda mais claro que a corrupta elite tradicional brasileira está disposta a sacrificar o Estado de Direito e a democracia eleitoral para retomar o poder das mãos do PT, a quem ela nunca aceitou como membro de seu clube. Mas será que a elite vai conseguir se safar ilesa?

E ela está disposta a correr o risco de que o preço a pagar seja a humilhação e vergonha internacionais que os americanos estão sofrendo sob a Presidência de Trump?


Mark Weisbrot é codiretor do Centro de Pesquisas Econômicas e Políticas, em Washington, e presidente da Just Foreign Policy. É também autor do livro “Failed: What the 'Experts' Got Wrong About the Global Economy” (2015, Oxford University Press).