Mark Weisbrot
Folha de São Paulo
(Brazil), 12 de junho, 2011
Em inglês

A economia brasileira cresceu entre 2004 e 2010 a uma média anual de 4,2%, mais de duas vezes o índice em que crescera entre 1999 e 2003 e mais de duas vezes seu crescimento anual entre 1980 e 2000. Isso a despeito da recessão mundial de 2009, que deixou o país sem crescimento nesse ano.

Esse crescimento intensificado possibilitou a redução acelerada da pobreza, a redução da disparidade de renda e a queda do desemprego para o atual recorde de nível baixo.

Em documento detalhado e importante, os economistas Franklin Serrano e Ricardo Summa, da UFRJ, argumentam que isso foi fruto não só de condições externas favoráveis, mas também de algumas mudanças moderadas, porém importantes, na política econômica.

O mais importante foi o fato de o governo ter permitido uma política fiscal mais expansionista, incluindo o aumento dos investimentos públicos. Isso ajudou especialmente a conservar em grau mínimo os prejuízos advindos da recessão global e permitiu uma recuperação mais rápida. Resta, contudo, outro problema significativo de política macroeconômica: o Banco Central vem elevando o valor do real quase continuamente, há anos, para poder alcançar sua meta de inflação.

Para isso, o BC eleva os juros de curto prazo, como vem fazendo recentemente. Isso aumenta os fluxos de capital entrante, o que eleva o valor do real. Desse modo, a inflação é reduzida principalmente por meio da redução dos preços dos importados. Contudo, as importações mais baratas prejudicam os produtores brasileiros de bens comerciáveis, que precisam competir com os importados.

O mesmo se aplica aos exportadores brasileiros da maioria dos bens que não sejam commodities: o real mais alto torna os produtos menos competitivos nos mercados mundiais. Isso vem prejudicando seriamente o potencial manufatureiro do Brasil, especialmente naqueles setores tecnologicamente mais avançados.

Por exemplo, entre 1996 e 2008, o conteúdo importado de "equipamentos de comunicações e eletrônica" produzidos no país aumentou cerca de 33 pontos percentuais.

O Brasil guarda semelhanças com os Estados Unidos, sob alguns aspectos, nas origens de seus erros de política macroeconômica: o setor financeiro é poderoso demais.
Assim como Wall Street contribuiu maciçamente para a crise financeira e para a Grande Recessão nos EUA, o setor financeiro brasileiro luta com êxito demasiado por políticas que sufoquem o desenvolvimento industrial do país para promover seus interesses próprios.

Os trunfos em jogo são ainda maiores para o Brasil que para os EUA, porque o Brasil ainda é um país em desenvolvimento. Entre 1960 e 1980, o índice de crescimento do Brasil foi semelhante ao da Coreia do Sul, e o Brasil tinha renda per capita muito mais alta.

Depois de 1980, a Coreia do Sul continuou no caminho do crescimento acelerado e hoje tem padrões de vida comparáveis aos da Europa. Mas o Brasil estagnou e, depois de 1990, descreveu um desvio acentuado em direção ao neoliberalismo; assim, apesar de sua grande vantagem em matéria de recursos naturais, hoje os brasileiros têm renda per capita que equivale a apenas um terço da renda per capita da Coreia do Sul, com índice de mortalidade infantil quatro vezes superior ao desse país e 42 milhões de habitantes que vivem com menos de US$ 3 por dia.

Nos últimos seis anos, o Brasil começou a romper com o fracasso de longo prazo da era neoliberal.

Mas ainda há um longo caminho a ser percorrido para que o país consiga realizar seu potencial.


 

MARK WEISBROT é codiretor do Centro de Pesquisas Econômicas e Políticas ( www.cepr.net ), em Washington, e presidente da Just Foreign Policy ( www.justforeignpolicy.org ).

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