Mark Weisbrot
Folha De S. Paulo, 4 de setembro

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Em inglês

O ministro Joaquim Levy disse que o desemprego no Brasil vai aumentar e que os brasileiros precisam "encarar algumas realidades". Nenhum país deveria ter um ministro da Fazenda com essa atitude diante de uma das necessidades mais importantes para o povo, o emprego. 

E, pior ainda, alguém que está agindo com base nessas ideias distorcidas para convertê-las em realidade. Ele próprio deveria ser o primeiro a perder seu emprego.

A maioria dos brasileiros se encontra em situação muito melhor do que estava antes de o PT chegar à Presidência, em janeiro de 2003.

Entre 2003 e 2012, a pobreza foi reduzida em 55% e a pobreza extrema em 65%, enquanto os salários em reais aumentaram 35%, e o salário mínimo dobrou. Entre 2004 e 2010, a economia cresceu a um ritmo duas vezes maior do que o dos 23 anos anteriores, e os ganhos resultantes desse crescimento foram distribuídos de modo igualitário.

Esses ganhos estão sendo erodidos à medida que a economia afunda em recessão e o desemprego cresce. Estudo dos economistas Franklin Serrano e Ricardo Summa mostra que isso não se deve principalmente a fatores externos, como o desaquecimento do crescimento econômico e do comércio globais.

Na verdade, é sobretudo consequência de políticas governamentais que reduziram a demanda agregada desde o final de 2010, levando ao arrocho do Orçamento, cortes nos investimentos públicos, alta dos juros e estrangulamento do crédito.

A austeridade não está funcionando no Brasil, assim como não funcionou na Europa. Essas políticas não apenas estão criando desemprego e pobreza desnecessários no presente como também sacrificando o futuro. O Brasil precisa de investimentos públicos em transporte e outras obras de infraestrutura, mas esses gastos são os primeiros a serem sacrificados.

O Banco Central elevou os juros de curto prazo de 7,5% em abril de 2013 para 14,25%. Devido à presença de juros exorbitantes há muitos anos, o governo paga mais de 6% do PIB em juros líquidos –cerca de 20% dos gastos federais. A carga de juros paga pelo governo é uma das mais altas do mundo.

A redução das taxas de juros poderia liberar dinheiro no Orçamento para investimentos públicos. Está claro que o governo precisa aumentar seus gastos para dar um novo pontapé na economia. Foi o que fez, com êxito, diante da crise financeira e da recessão global, em 2009.

O Brasil ainda não precisa se preocupar com restrições financeiras externas, já que possui reservas de US$ 370 bilhões. Sua dívida pública líquida é de apenas 34% do PIB –é uma proporção baixa segundo qualquer comparação; o problema são os juros exorbitantes, de 11%, em média, sobre títulos governamentais em aberto. A economia tem muitas razões para crescer, mas está claro que o setor privado não vai liderar esse crescimento.

Dilma foi reeleita com a promessa de fazer frente à oligarquia e dar continuidade às políticas bem-sucedidas que levaram progresso econômico e social ao Brasil pela primeira vez em décadas. Levy pode preferir desemprego maior e salários menores, mas não foi por isso que os brasileiros elegeram Dilma.

Não há motivo para o governo cometer suicídio político, continuando a implementar o programa econômico falido da oposição.

Tradução de CLARA ALLAIN. 


MARK WEISBROT é codiretor do Centro de Pesquisa Econômica e Política, em Washington, e presidente da Just Foreign Policy, organização norte-americana especializada em política externa.