Mark Weisbrot
24 de outubro de 2014, Folha De S. Paulo

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As questões ligadas à economia foram amplamente discutidas na disputa entre Dilma Rousseff e Aécio Neves, que se encerra neste domingo ( 26). Muitas vezes, a cobertura do tema é malfeita e pouco compreendida, de modo que vale a pena rever as questões principais.

Primeiramente, o histórico de atuação do PT. Sua conquista mais citada foi na área da redução da pobreza: o índice de pobreza caiu 55% desde 2003 e o de pobreza extrema, 65%. O crédito por isso cabe ao governo? Em grande medida, sim.

A economia cresceu muito mais nos governos do PT do que durante os oito anos de governo Fernando Henrique e boa parte disso se deve às políticas fiscal e monetária menos restritivas. A renda per capita cresceu 2,3% ao ano durante os anos do PT — contra 0,7% na era FHC—, mesmo incluindo a recessão de 2009 e o desaquecimento dos últimos anos.

AampliaçãodoBolsaFamília, que de 16,2 milhões de pessoas passou a alcançar 57,8 milhões, e o aumento real de 90% do salário mínimo tambémrepresentarem umreforço enorme para as pessoas pobres.

Mas o impacto das políticas governamentais também elevou a renda de muitos brasileiros para acima da linha de pobreza. Essas políticas incluem aumentos nas pensões públicas e umaumento real de 35% na média dos salários desde 2003.

O fato de os salários terem continuado a subir mesmo depois de a economia ter começado a se desaquecer, em 2011, indica que ocorreu uma mudança estrutural em favor do poder de barganha dos trabalhadores. Aeconomia continua comum índice de desemprego baixíssimo.

Desde 2011, contudo, o crescimento perdeu força e neste ano a economia entrou em recessão técnica. Para ver como Aécio Neves daria nova partida na economia, vejamos as declarações de seu coordenador econômico, Arminio Fraga, ex- presidente do Banco Central e hoje gerente de fundos de hedge.

Arminio propõe restringir o Orçamento e reduzir a meta de inflação do governo, algo que, presume- se, também significaria a elevação das taxas de juros. Seu argumento é que essas medidas “restaurariam a credibilidade” da política econômica brasileira e, com isso, atrairiam mais investimentos privados.

Podemos ver até que ponto tal “retorno à ortodoxia econômica”, como o “Financial Times” descreveu, vem funcionando na zona do euro ou em outros países, onde levou à recessão prolongada e a índices recordes de desemprego.

Esse grupo quer conduzir a economia com um pé pressionando o freio e torcer para que os investidores o recompensem por fazê- lo. Mas os investidores raramente se animam com uma economia estagnada. Arminio Fraga, que será o ministro da Fazenda caso Aécio saia vencedor nodomingo, tambémquer limitar a ação dos bancos públicos, o que significaria menos investimentos do governo.

Aécio e Arminio querem tornar o Banco Central mais independente do Executivo. Na prática, isso geralmente significa um Banco Central mais disposto a sacrificar o crescimento, o emprego, a redução da pobreza e a política industrial aos interesses do setor financeiro, ao buscar — muitas vezes em vão— um índice de inflação mais baixo.

A presidente Dilma Rousseff foi generosa demais quando disse que o PSDB “governou para apenas um terço do país”. Foi um grupo muito menor que se beneficiou de presentes como privatizações maciças, enquanto a economia estagnava. Será surpreendente se a maioria dos brasileiros votar pelo retorno das políticas fracassadas e menos inclusivas do passado.

MARK WEISBROT é codiretor do Centro de Pesquisa Econômica e Política, em Washington, e presidente da Just Foreign Policy, organização norte- americana especializada em política externa