Mark Weisbrot
Folha de São Paulo
(Brasil), 17 de agosto, 2011
Em Inglês

Um mês atrás eu argumentei neste espaço que o Brasil deveria definir um cronograma para tirar suas tropas do Haiti, já que não há guerra em curso nesse país e nenhuma razão -nem justificativa- legítima para a força militar da ONU (a Minustah) estar ali. Agora, o novo ministro da Defesa brasileiro, Celso Amorim (que tomou posse em 8 de agosto), disse à imprensa brasileira ser "a favor da retirada das tropas brasileiras do Haiti". É uma notícia importante.

De acordo com o artigo do "Globo", "o assunto foi discutido na primeira reunião entre o ministro e os comandantes das Forças Armadas, no Palácio do Planalto, no sábado. [...] Houve 'convergência de opinião', ou seja, a cúpula militar também concorda com o retorno das tropas".

Mas quando elas vão partir? O presidente Obama vem falando de as tropas americanas deixarem o Afeganistão, mas elas estão no país há quase uma década, e agora o Pentágono está falando em 2014, ou, ainda pior, em manter uma presença militar permanente ali.

Mesmo no Iraque, onde em 2008 o presidente Bush assinou um acordo prevendo a retirada das tropas de combate americanas, a administração Obama vem tentando manter 10 mil soldados e milhares de funcionários civis no país por tempo indeterminado. As tropas dos EUA vão sair do Afeganistão quando a opinião pública dos EUA -que, por maioria avassaladora, é contra a ocupação e a guerra- e a pressão se tornarem fortes demais para que os políticos as ignorem.
É devido à oposição política em seus países que os governos do Canadá e da Holanda retiraram suas forças de combate das forças "da coalizão", que, na realidade, fazem parte de uma ocupação americana.

O mesmo se aplica à ocupação do Haiti. Ela é também uma ocupação americana, dessa vez sob o disfarce da ONU. As tropas foram levadas para "manter a ordem" depois de Washington e seus aliados terem derrubado o governo haitiano democraticamente eleito, em 2004.

A ocupação vai terminar quando os governos estrangeiros que têm soldados ali constatarem que é um ônus político grande demais. É bem possível que outros países latino-americanos saiam do Haiti antes do Brasil, aumentando a pressão sobre o Brasil para encontrar o que Amorim descreveu como "uma estratégia de saída".

Dentro do Brasil existe oposição significativa à ocupação do Haiti. Carta recente à presidente Dilma foi assinada por vários legisladores do PT, por Markus Sokol, do Diretório Nacional do PT, representantes da CUT, do MST e muitos outros. Ela dizia: "É preciso terminar com a participação do Brasil numa operação militar que é repudiada pela grande maioria do povo haitiano [...] essa ocupação só fez aprofundar a situação dramática do povo e negar a sua soberania".

Esses brasileiros estão atuando como a consciência da nação -estão se manifestando porque se preocupam com o povo do Haiti, e não com ganho político próprio.
A administração Dilma deveria dar ouvidos a eles e sair do Haiti mais cedo, ao invés de mais tarde.


Tradução de Clara Allain. Mark Weisbrot, codiretor do Centro de Pesquisas Econômicas e Políticas, em Washington, e presidente da Just Foreign Policy, passa a escrever quinzenalmente às quartas-feiras.

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